A questão dos transgênicos e a CTNBio, por Paula Beiguelman
01/12/2006 - VERMELHO. Por tudo isso, para facilitar e “agilizar” o processo de liberação de transgênicos, os que apoiam o lobby estão intensificando a campanha visando a redução do número de membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, ou do quórum mínimo necessário para a aprovação.
A questão dos transgênicos e a CTNBio, por Paula Beiguelman*
Vermelho, 01/12/2006.
Algumas considerações
Como é sabido, a
partir de meados dos anos 90, a multinacional Monsanto encontrou plenas
condições para praticar intenso lobby em torno da soja RR (Roundup Ready),
biotecnologicamente dotada de resistência ao herbicida Roundup, à base de
glifosato.
Foi dessa forma que, através de um processo repleto de
irregularidades, conseguiu que a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança
(CTNBio), sua aliada, lhe concedesse primeiro um parecer favorável à liberação
da RR no país (24 de setembro de 1998) e em seguida (17 de maio de 1999) o
registro de cinco variedades.
Ocorria que a CTNBio, atuando sob a batuta
do seu presidente de então, o Dr. Barreto de Castro, no ritmo açodado imposto
pela multinacional, concordara em dispensar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA)
e o respectivo Relatório de Impacto no Meio Ambiente (RIMA). Não levara em conta
tratar-se de dados exigidos pelo inciso IV do artigo 225 da Constituição de
1988, justamente para avaliar a resposta do nosso agroecossistema, com suas
peculiaridades, a uma intervenção como aquela que se projetava.
Ou seja,
submissamente, a CTNBio aceitava como suficientes as pesquisas ambientais já
feitas nos Estados Unidos e sob a influência da parte interessada. Porém, no dia
21 de junho de 1999, o Dr. Souza Prudente, juiz da 6ª Vara da Justiça Federal de
Brasília, acolhia o parecer do Ministério Público, baseado em ação movida
contra a empresa de biotecnologia e a União, dadas as “possíveis falhas
apresentadas pela CTNBio em relação ao pedido de desregulamentação da soja RR”.
E no dia 21 de agosto o Dr. Prudente ratificava essa liminar, transformando-a em
decisão de 1ª instância.
Um novo enfrentamento com a CTNBio deu-se no ano
de 2000, por ocasião da ilegal tentativa de importação de milho transgênico. A
nova presidente do órgão, a também “confiável” Dra. Leila Oda, defendia a mesma
posição do seu antecessor Dr. Barreto. Era sabido que daria parecer favorável à
importação do milho-inseticida Bt, mesmo porque era respaldada pela
Advocacia-Geral da União da época e pelo próprio governo em peso. Porém o Dr.
Prudente se contrapôs a mais essa pretensão.
Inconformada com as decisões
judiciais, a Monsanto intensificava a agressiva atividade clandestina de
estímulo ao plantio de transgênicos a que se vinha lançando no Rio Grande do
Sul, numa operação de aliciamento e corrupção. Visava criar uma situação de fato
que lhe permitisse argumentar que, como o cultivo das sementes proibidas já
estava se realizando de qualquer forma, era melhor liberá-lo! Para isso, se
levaria em conta apenas a aprovação irregular pela CTNBio, ignorando a sentença
da Justiça em contrário...
A diplomacia norte-americana se manifestava
em apoio à empresa. Assim, em maio de 2000, o então embaixador Anthony
Harrington, em entrevista à imprensa, aconselhava piedosamente o Brasil a
aceitar os “avanços da ciência”.
Com as opções mundiais favorecendo o
Brasil, intensificava-se a pressão sobre o nosso país, cujo produto natural
fazia concorrência expressiva ao geneticamente modificado. Pretendia-se
nivelar-nos aos demais produtores de alimentos rejeitados.
Na verdade,
desde o momento em que a Monsanto começou a estimular criminosamente a
utilização clandestina de suas sementes, a opinião esclarecida já alertava para
o fato de que cabia ao poder público ao qual compete a visão de conjunto
evitar o desastre. Tratava-se, como medida de defesa nacional, de não permitir,
além dos riscos ao nosso agroecossistema, que a economia agrícola do país,
especialmente as exportações, fosse lesada pela perda de credibilidade em
mercados que dão preferência à soja natural.
Ocorreu, porém, que logo ao
tomar posse no primeiro mandato, o governo Lula se viu acuado por intensa
campanha pró-transgênicos, desencadeada pelos lobistas e seus aliados. Com
sofismas, aludia-se à defesa da ciência e da biotecnologia, embora o alvo
imediato dissesse respeito à liberação da safra clandestina do Rio Grande do
Sul.
Quanto ao ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, não tardou a
ficar nítida sua posição com respeito à matéria. Assim, pelo cargo ocupado,
contribuiu para que fosse editada a Medida Provisória 113 (aprovada na Câmara
dos Deputados em 15 de maio de 2003), que permitiu a comercialização da soja
transgênica até o início de abril de 2004.
A escalada prosseguia, não
tardando a ser editada nova MP, de n. 131, autorizando o plantio de sementes
transgênicas (restantes de aquisição anterior) para nova safra, e com
abrangência para todo o país.
Preocupados com a contaminação que o
trânsito dessas sementes por suas regiões provocaria, alguns estados com
lavouras de maior produtividade, com destaque para o Paraná, passaram a colocar
em prática medidas de precaução. Ao mesmo tempo, à revelia do ministro da
Agricultura, o governador Requião anunciava o louvável intuito de transformar
seu estado em área livre de transgênicos.
Em sentido contrário e
isolados, os agricultores gaúchos prometiam continuar suas práticas , inclusive
utilizando o glifosato (princípio ativo do herbicida Roundup) de maneira
irregular e excessiva, embora à custas da saúde dos trabalhadores rurais e dos
consumidores.
Quanto ao ministro da Agricultura, empenhava-se em tentar
“legalizar a ilegalidade”.
Além disso, no curso dos entendimentos, o
governo se comprometia a enviar logo ao Congresso um projeto de lei que trataria
da política brasileira com relação ao cultivo e comercialização de transgênicos
, à biossegurança e à competência da CTNBio. A mídia favorável à Monstanto
exultou com esse compromisso que, diversamente, se pronunciava ameaçador para os
defensores do interesse nacional.
Com efeito, a Lei de Biossegurança
(sancionada em março de 2005), já durante o período de discussão do projeto se
mostrava visivelmente orientada no sentido do fortalecimento dos poderes da
CTNBio.
De fato, os lobbies esperavam que, com a promulgação da Lei de
Biossegurança, desapareceriam quaisquer entraves à aprovação dos produtos que
defendiam; para isso contavam com os votos dos seus representantes na CTNBio.
Ou seja, pretendem que o órgão atue como mero homologador das liberações
solicitadas.
Mas, de repente, descobriram que não é bem assim. E,
insatisfeitos, se arregimentam para uma batalha a fim de alterar o formato da
CTNBio.
Para começar, desagrada-lhes que no colegiado estejam
representados aqueles cuja opinião acerca dos organismos geneticamente
modificados difere da deles. Já os pró-transgênicos são os únicos que lhes
merecem a designação de cientistas.
Em aparente contradição, foram
exatamente estes últimos que contribuíram para a falta de quórum, impeditiva à
realização das sessões. E com base nesses fatos, além de “denunciar” que a
CTNBio “estava parada”, passaram a justificar as ausências a seu modo: não
havia razão para os auto-denominados (e com exclusividade!) cientistas,
suportarem a freqüência a sessões “ideológicas”...
No caso da avaliação
do milho transgênico Liberty Link, produzido pela Bayer Cropscience (e
resistente ao glufosinato de amônio, princípio ativo do herbicida a ser
empregado), foi necessário argumentar que o instrumento de participação da
sociedade civil estava previsto na Lei de Biossegurança, para que o colegiado
admitisse a audiência pública solicitada.
O representante do Ministério
do Meio Ambiente, por exemplo, questionava o limite da aplicação do herbicida
no grão, a ser obedecido para não prejudicar a saúde humana. Cautelas como essa
vêm sendo consideradas como “exigências da CTNBio”, que podem atrasar
liberações...
Recentemente, a CTNBio rejeitou o pedido de liberação de
uma vacina transgênica para suínos, da multinacional Schering-Plough.
Inconformado, o presidente do colegiado, o médico bioquímico Walter Colli,
manifestou seu desagrado. No entanto, como observou o geneticista Rubens Nodari,
seu colega, a União Européia também não aprovara essa vacina além de existirem
outras, convencionais. O caso é que, segundo Nodari, não havia dados científicos
suficientes para sustentar uma decisão favorável.
Por tudo isso, para
facilitar e “agilizar” o processo de liberação de transgênicos, os que apoiam
o lobby estão intensificando a campanha visando a redução do número de membros
da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, ou do quórum mínimo necessário
para a aprovação.
Além disso se contrapõem, por considerá-la
especialmente intolerável, à determinação manifestada pela subprocuradora-geral
da República, Sandra Cureau, de discutir na Justiça eventuais liberações
comerciais pela CTNBio, sem a realização de estudos de impacto ambiental no
Brasil.
Contudo, a procuradora exige apenas o cumprimento do disposto no
inciso IV do artigo 225 da Constituição de 1988, retomando a luta iniciada pelo
magistrado Dr. Souza Prudente que, em 1999, acolheu o parecer do Ministério
Público contrário à empresa de biotecnologia e à irregular decisão da
CTNBio.
*Paula Beiguelman, Professora Associada da USP