Milho transgênico a caminho, artigo de Gabriel B. Fernandes
25/05/2007 - AGÊNCIA CHASQUE. Com a liberação do milho transgênico os casos de contaminação continuarão acontecendo só que de forma muito mais acelerada. Além da mistura no maquinário, o milho transgênico se dispersará muito mais rápido pois sua polinização é aberta e feita pelo vento.
Agência Chasque, 25/05/2007.
Milho transgênico a caminho
Neste mês de maio o governo liberou uma
variedade de milho transgênico para plantio comercial. É o milho chamado de
Liberty Link, da multinacional alemã Bayer. A mesma empresa também venderá o
herbicida (mata mato) de nome Liberty para ser aplicado sobre o milho. É o mesmo
caso da soja transgênica Roundup Ready da Monsanto resistente ao herbicida
Roundup (glifosato).
É importante destacar que esta decisão ainda não é final e pode ser
alterada. Órgãos como Ibama e Anvisa podem contestar a decisão. E o governo
ainda deverá avaliar os impactos sociais e econômicos desta liberação. Depois
disso, se for mantida a decisão, o Ministério da Agricultura deverá registrar a
semente, o que leva mais de um ano. Ou seja, qualquer plantio de qualquer tipo
de milho transgênico hoje em dia é ilegal e deve ser
denunciado.
A liberação do milho transgênico coloca em risco toda a diversidade
de variedades crioulas que é cultivada e conservada por agricultores e
camponeses de todo o país. Não há como evitar que o milho transgênico se misture
e contamine as variedades crioulas. Não há nenhum caso conhecido de país que
tenha liberado o plantio do milho transgênico e que não tenha prejudicado a
agricultura ecológica e mesmo a convencional não
transgênica.
Na Europa já foi reconhecido que a contaminação irá acontecer. Agora
se discute qual será a porcentagem de transgênicos permitida em produtos
orgânicos e convencionais. Aceitar essa situação é um grande desrespeito a
consumidores que desejam alimentos mais saudáveis e livres de agrotóxicos e
transgênicos. Também é um desrespeito aos agricultores, que têm todo o direito
de cultivar suas sementes sem serem prejudicados.
Vários agricultores vêm sofrendo
prejuízos no Brasil com a soja transgênica. Mesmo aqueles que não plantam essas
sementes. O governo do Paraná já detectou contaminação com até 9% de
transgênicos nas sementes convencionais de soja que são comercializadas no
estado. E o Paraná vem desde 2003 combatendo o plantio de transgênicos e
fiscalizando as lavouras. Também há casos de produtores orgânicos que tiveram
que vender a produção como convencional porque ela foi misturada na colhedora ou
no caminhão com soja transgênica plantada por vizinhos. Dependendo do nível de
contaminação a Monsanto, no caso da soja, ainda pode cobrar uma taxa do
agricultor por ele ter usado sua tecnologia.
Com a liberação do milho tudo isso
continuará acontecendo só que de forma muito mais acelerada. Além da mistura no
maquinário, o milho transgênico se dispersará muito mais rápido pois sua
polinização é aberta e feita pelo vento.
A única saída para evitar a
contaminação é não plantar o milho transgênico e mobilizar os vizinhos para
também não plantarem. Este debate deve ser levado para dentro das associações,
sindicatos e demais organizações dos agricultores. Mesmo um canteiro plantado só
para conhecer a semente já é suficiente para contaminar plantações
vizinhas.
A
pressão das empresas e do agronegócio para a liberação dessas sementes é muito
grande. Tanto é que o milho Liberty Link foi aprovado mesmo sem estudos para
comprovar que ele não faz mal à saúde.
Quando começar a ser plantado, o milho
transgênico entrará na nossa alimentação. Isso pode acontecer via farinha, fubá,
bolos e outros produtos. Também pode entrar indiretamente através de aves,
suínos e outros animais que comeram milho transgênico. Tudo deverá ser rotulado.
Mas infelizmente sabemos que pode acontecer o mesmo que acontece com a soja e
nada ser rotulado.
Novamente, é importante que essa discussão seja levada adiante. O
trabalho de resgate, multiplicação, melhoramento e troca de sementes deve ser
reforçado. Além de ser uma fonte mais garantida de sementes este trabalho
permite que o agricultor tenha uma produção ecológica pouco ou nada dependente
de insumos externos. A semente transgênica é o caminho oposto. Prende o
agricultor ao manejo convencional e altamente dependente de insumos
caros.
Gabriel Fernandes é assessor técnico da ASPTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa).