O imbróglio da CTNBio, artigo de Gabriel B. Fernandes
REVISTA DO TERCEIRO SETOR, 08/06/2006. Obscurantismo, na verdade, é acreditar por princípio que, no caso, os transgênicos são inerentemente seguros e evitar, de todas as formas, que esses produtos sejam submetidos a testes rigorosos, independentes e de médio e longo prazos
As
multinacionais dos transgênicos e seus defensores sempre lutaram por
uma CTNBio com poderes ampliados para decidir soberanamente sobre a
liberação de transgênicos. Mudaram a lei e conseguiram. Mas o mesmo
processo político que gerou a nova lei de biossegurança instituiu
mecanismos que visam tornar a Comissão mais transparente e
participativa.
E são esses esforços para colocar a CTNBio numa rota mais democrática que vêm provocando a ira de alguns.
A
voz dos que se sentem incomodados com a transparência ou com o dever de
cumprir a lei ganhou força e contundência no editorial do Estado de São
Paulo publicado no dia 31/5. A indignação tem origem no fato de o
Ministério Público Federal ter designado uma procuradora da república
para acompanhar as reuniões da CTNBio.
Em tom extremamente
agressivo, o jornal usou de linguajar chulo para defender o misticismo
científico que promove os transgênicos. Todos os membros da CTNBio são
doutores com notório conhecimento nas suas áreas de atuação.
Mas
para o jornal, que ecoa os brados de tecnocientistas, os que buscam
fazer a Comissão cumprir seu real objetivo de garantir biossegurança à
população são “Ecofundamentalistas e radicais que abominam o
agronegócio”, “ecoxiitas” que “adotaram estratagema que não engana a
ninguém” e que “gastam tempo” com um “palavrório sem-fim”.
Gastar
tempo com palavrório sem fim significa, entre outros, atualizar e
aperfeiçoar as normas internas da comissão, feitas em sua maioria dez
anos atrás.
Certamente muita coisa mudou no campo
técnico-científico da biotecnologia e da biossegurança nesse período.
Mas atualizar os mecanismos de funcionamento e de tomada de decisão da
Comissão à luz de novos conhecimentos é tido como ato “obscurantista”.
Para
se ter uma idéia, cientistas que revisaram o processo de avaliação de
transgênicos na Nova Zelândia concluíram que se o cigarro fosse
submetido a testes semelhantes aos aplicados aos transgênicos, ele não
seria considerado maléfico à saúde.
Assim, obscurantismo, na
verdade, é acreditar por princípio que, no caso, os transgênicos são
inerentemente seguros e evitar, de todas as formas, que esses produtos
sejam submetidos a testes rigorosos, independentes e de médio e longo
prazos. Há evidências científicas e práticas de sobra que justificam
essa necessidade.
O obscurantismo também pode explicar a
resistência, ou inconformidade, de alguns membros da CTNBio em assinar
uma declaração de conduta onde deverão constar os eventuais conflitos
de interesses existentes entre o membro da Comissão e os processos que
nela serão avaliados. O que existe a ser escondido?
Declarações
semelhantes são exigidas para a publicação de artigos em revistas
científicas. Ademais, ao contrário do que informou o mesmo O Estado de
São Paulo no último dia 30, não foi a procuradora quem exigiu a
assinatura das declarações.
A medida está prevista em lei e
deveria ter sido feita no dia da posse dos membros, há seis meses. O
que fez a procuradora foi usar de suas prerrogativas legais para exigir
que a lei seja cumprida.
De fato, numa Comissão cujo presidente
afirma que o povo no Nordeste come o que vier e for mais barato -
aludindo que a também legal rotulagem de transgênicos não teria maiores
funções - a adoção de medidas que garantam a ética e o cumprimento da
lei é muito bem-vinda.
(Revista do Terceiro Setor - http://www.rets.rits.org.br, 7/8)