Boletim 366 - 19 de outubro de 2007
A agricultura ecológica tem potencial para inclusive abastecer uma população ainda maior mesmo sem ter que a aumentar a área agrícola cultivada.
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POR UM BRASIL LIVRE DE
TRANSGÊNICOS
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Número 366 - 19 de outubro de
2007
Car@s Amig@s,
A ideologia da modernização da
agricultura baseada nos pacotes tecnológicos da revolução verde sempre quis
fazer crer que o abastecimento alimentar de uma população mundial em crescimento
não seria possível sem a adoção massiva de seus insumos químicos, fertilizantes,
venenos, máquinas, sementes melhoradas e agora transgênicas.
Esse foi o
pensamento dominante que durante as últimas cinco décadas orientou as políticas
de pesquisa, ensino, extensão rural e crédito agrícola. Essa visão ganhou
tamanha força, que o potencial da matriz tecnológica alternativa baseada na
agroecologia de abastecer a população mundial foi sempre
desacreditado.
No entanto, para uma equipe de pesquisadores da
Universidade de Michigan, Estados Unidos, que se dedicou a estudar o tema, está
na hora de aposentar essa discussão sobre a suposta inviabilidade da agricultura
ecológica. Eles fizeram um amplo levantamento de dados documentados em todo o
mundo comparando a produtividade de sistemas convencionais, agroecológicos e
tradicionais e concluíram que a agricultura agroecológica pode sim abastecer
toda a população mundial, tanto local como globalmente.
A pesquisa também
aponta que além de poder alimentar toda a população mundial, a agricultura
ecológica tem potencial para inclusive abastecer uma população ainda maior mesmo
sem ter que a aumentar a área agrícola cultivada. Com essas conclusões,
desfaz-se também o mito que diz que por ser menos produtiva a agricultura
ecológica teria que avançar sobre novas áreas para produzir suficiente comida, e
que esse desmatamento anularia suas vantagens ambientais.
O que deve-se
levar em conta é que o modelo dominante de agricultura é insustentável e sua
perpetuação coloca em risco nossa capacidade de continuarmos produzindo
alimentos, uma vez que ele degrada e erode os solos, contamina as águas, reduz
biodiversidade e emite gases causadores do efeito estufa.
A pesquisa
também avaliou a capacidade da agroecologia ser auto-suficiente em nitrogênio,
elemento crítico para a produção agropecuária e que para muitos seria um fator
limitante da expansão da agricultura ecológica. Novamente, a equipe de Michigan
mostrou a superioridade da agroecologia. Tanto para ecossistemas temperados como
para aqueles situados em regiões tropicais, práticas como o uso de leguminosas,
as rotações de culturas e os cultivos de cobertura podem fixar uma quantidade de
nitrogênio equivalente àquela usada atualmente na forma de adubos
sintéticos.
Os pesquisadores ainda destacam as vantagens dessa mudança de
fonte de nitrogênio para o clima, já que o óxido nitroso emitido pelos
fertilizantes químicos contribui muito para o aquecimento global.
Também
nesse mesmo sentido, um relatório da FAO divulgado este ano reforça o potencial
e a necessidade de a agricultura ecológica substituir a agricultura
convencional. Para a FAO, o atual modelo agrícola é paradoxal: produz comida de
sobra enquanto a fome atinge 850 milhões de pessoas, o uso de agroquímicos vem
crescendo mas a produtividade das culturas não e o conhecimento sobre
alimentação e nutrição está cada vez mais disponível e é acessado cada vez de
forma mais rápida, porém um número crescente de pessoas sofre de
má-nutrição.
O relatório da FAO enfatiza as contribuições da agricultura
ecológica para a segurança alimentar e nutricional da população mundial, a
importância central de os agricultores terem livre acesso às suas sementes
crioulas e de variedade locais e também o papel chave das organizações dos
agricultores em trocar e divulgar conhecimentos agroecológicos.
Esse
reconhecimento do potencial da agroecologia pode não ser novidade para muitos,
mas é importante para convencer governos e para derrubar mitos. Muito forte hoje
é a crença de que somente a biotecnologia e a adoção de sementes transgênicas
poderia responder aos atuais desafios de continuar produzindo e ao mesmo tempo
conservar os recursos naturais. A transgenia traz “mais do mesmo”, ampliando a
dependência tecnológica dos agricultores com suas sementes patenteadas e
trazendo novos riscos, muitos dos quais ainda são desconhecidos.
Tanto a
pesquisa americana quanto o relatório da FAO deixam claro que um maior
investimento em pesquisa, e com um novo enfoque, será necessário para promover o
avanço da agroecologia. Da mesma forma, está claro que o grande desafio é
político, e a ação dos governos em favor da agroecologia será fator decisivo
para a conversão do atual modelo agrícola.
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Referencias
bibliográficas:
Badgley, C. et al. (2007). Organic agriculture and
the global food supply. Renewable Agriculture and Food Systems: 22(2);
86-108.
FAO. International Conference on Organic Agriculture and Food
Security. Rome 3-6 may 2007. Report. Disponível em: ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/meeting/012/J9918E.pdf
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Neste
número:
1. Milho Bt afeta insetos aquáticos
2. MST protesta contra a
Bunge em Passo Fundo
3. Especialistas faltam e CTNBio não faz reunião
4.
Santa Catarina pode ter plebiscito sobre transgênicos
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são
solução para a agricultura
Banco de sementes comunitário: a
experiência de São Tomé, Alagoa Nova
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1.
Milho Bt afeta insetos aquáticos
Pesquisadores da Universidade de
Indiana, nos Estados Unidos, revelaram que as plantas transgênicas Bt podem
afetar significativamente insetos importantes para o equilíbrio de ecossistemas
aquáticos.
A equipe liderada por Todd V. Royer identificou que larvas de
insetos da ordem Trichoptera estavam se alimentando de pólen de milho Bt
plantado nas proximidades de córregos e ribeirões. Por se tratar de um grupo de
insetos aparentado das lagartas controladas pela toxina das plantas Bt, esses
insetos não-alvo também estão sendo afetados.
Os pesquisadores
alimentaram larvas de duas dessas espécies em laboratório com folhas e pólen de
milho transgênico e verificaram que o crescimento de uma delas foi reduzido mais
que pela metade e houve mortande na outra espécie.
Esses insetos são uma
importante fonte de alimento para peixes e outros organismos. A confirmação
desse impacto do milho Bt mostra que seu plantio pode causar sérios
desequilíbrios ambientais. Somente na região norte do Brasil mais de 130
espécies desses insetos já foram identificadas.
Com informações
de:
http://www.pnas.org/cgi/content/abstract/104/41/16204
;
http://72.32.142.180/news_story.php?id=5048
2. MST protesta contra a Bunge em Passo
Fundo
Cerca de 600 integrantes do Movimento Sem Terra (MST)
protestaram, nesta quinta-feira de manhã (18), em frente à unidade da
multinacional Bunge, na entrada de Passo Fundo. Os trabalhadores realizaram um
ato público no portão da empresa e trancaram parte da RST-153, rodovia que liga
Passo Fundo a Tio Hugo. A reportagem é de Raquel Casiraghi e publicada pela
Agência de Notícias Chasque, 19-10-2007.
De acordo com o coordenador
estadual do MST, Paulo Mioranza, as famílias querem chamar a atenção sobre os
malefícios que as multinacionais trazem à população. A Bunge é uma das maiores
multinacionais de alimentos do mundo, concentrando o mercado e eliminando,
através da competição, as empresas pequenas e médias. Ele também ressalta que a
multinacional prejudica o processo da reforma agrária e a agricultura
camponesa.
“A Bunge é uma empresa que está dentro do capital
internacional, que trabalha com o agronegócio, com grandes extensões de terra no
Mato Grosso. Nesse sentido, a reforma agrária passa por dificuldades. E a Bunge
contribui no momento em que concentra terras”, diz.
Paulo lembra que a
multinacional ainda não cumpriu com a determinação judicial de rotular os seus
produtos transgênicos. No final de setembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo
acatou a ação civil do Ministério Público e deu o prazo de 30 dias para que as
empresas Bunge e Cargill rotulassem os produtos como
transgênicos.
Chasque Agência de Notícias, 19/10/2007.
3. Especialistas faltam e CTNBio
não faz reunião
Pela primeira vez nos últimos dois anos, uma
reunião mensal da Comissão Ténica Nacional de Biossegurança (CTNBio) deixou de
ser realizada por falta de quórum. A inédita ausência simultânea dos quatro
membros especializados na área animal impediu a ocorrência da reunião plenária
agendada para a tarde de ontem. Para piorar, duas das seis vagas ainda não foram
indicados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.
Faltaram à reunião
Vasco Azevedo (UFMG), Aníbal Vercesi (Unicamp), Maria Lúcia Dagli (USP) e Carlos
Mazur (UFFRJ). A comissão está no centro de uma disputa judicial sobre
exigências mínimas para a liberação comercial de variedades de milho
transgênico. A polêmica arrasta-se desde a aprovação, em maio deste ano, do
produto Liberty Link da Bayer.
Ontem, o presidente do colegiado, Walter
Colli, tentou aprovar assuntos de consenso ad referendum do plenário para
limpar a pauta. Consultada, a Assessoria Jurídica do MCT afirmou que o
procedimento desrespeitaria a Lei de Biossegurança. Havia 22 membros presentes,
18 dos quais habilitados a votar. A lei pede quórum mínimo de 14 membros, mas
exige a presença de pelo menos um especialista de cada área (humana, animal,
vegetal e ambiental), o chamado quórum qualitativo.
Valor Econômico,
19/10/2007.
4. Santa Catarina pode ter
plebiscito sobre transgênicos
A Assembléia Legislativa recebeu na
tarde de hoje parlamentares, pesquisadores e representantes de entidades para
discutir, em audiência pública, a Lei nº 12.128/02, que dispõe sobre o plantio,
cultivo, pesquisa, industrialização e comercialização de organismos
geneticamente modificados transgênicos no estado.
Foram várias as
sugestões resultantes do encontro, como a realização de uma consulta popular ou
um plebiscito no estado sobre o tema, alterações na própria lei, que já tem
cinco anos de vigência e é considerada ultrapassada, exigência de selo de
identificação nos alimentos transgênicos e um levantamento sobre a situação
deste tipo de produção em Santa Catarina.
A reunião foi solicitada pela
deputada Odete de Jesus, líder do PRB, que tem dois projetos de lei sobre o
assunto tramitando na Casa. Um deles prevê que todos os produtos transgênicos
recebam um carimbo de identificação. O outro projeto proíbe o uso de qualquer
produto transgênico na elaboração da merenda escolar.
O Barriga Verde,
16 de Outubro de 2007.
http://www.adjorisc.com.br/jornais/obarrigaverde/noticias/index.phtml?id_conteudo=115157
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são
solução para a agricultura
Banco de sementes comunitário: a
experiência de São Tomé, Alagoa Nova
O Banco de Sementes Comunitário
de São Tomé, do município de Alagoa Nova (PB), é resultado do trabalho e da
necessidade da comunidade liderada por José Oliveira Luna, o Zé Pequeno. Desde
garoto, ele aprendeu a importância de guardar sementes, uma vez que seu pai
tinha silos que abasteciam a família e os vizinhos.
Em 1974, quando se
mudou para São Tomé, Zé Pequeno, em parceria com a Igreja, fundou o Banco de
Sementes Comunitário. A partir de 1975, a comunidade já podia se auto-abastecer,
o que acontece até hoje. O banco, que chegou a atender 150 famílias, contava em
2003 com 51, porque muitos agricultores entenderam que era melhor armazenar as
sementes dentro da própria casa, deixando o banco para as famílias mais
necessitadas.
Para participar do banco, o agricultor que pega a semente
emprestada pela primeira vez leva 10 kg e, após a colheita, devolve 15 kg. O
sócio vai aumentando aos poucos a quantidade de sementes até chegar à sua meta
de plantio. Quando passa a depositar suas sementes no banco, pode negociar as
variedades que deseja plantar. Uma comissão independente da associação
comunitária é responsável pela gestão do banco, o que é considerado
elemento-chave para seu sucesso. Outro ponto a ser destacado é a enorme
diversidade de espécies que caracteriza os cultivos na comunidade.
Em
2003, Zé Pequeno cedeu uma parte de seu terreno para a implementação de um campo
de multiplicação de sementes. Foram plantados 6 kg de milho pontinha, 6 kg de
fava de orelha-de-vó, 3 kg de fava cara larga, 20 kg de feijão carioca e 15 kg
de feijão preto pajeú. O banco hoje possui diversos silos fabricados por seus
sócios, com tamanhos diferentes para guardarem de maneira mais eficiente cada
variedade. A comunidade hoje reconhece a importância do banco para a garantia da
quantidade, qualidade, diversidade e disponibilidade das
sementes.
Agroecologia em Rede
http://www.agroecologiaemrede.org.br/experiencias.php?experiencia=352
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Campanha
Por um Brasil Livre de Transgênicos
Este Boletim é produzido pela
AS-PTA Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa e é de livre
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