Boletim 421 - 28 de novembro de 2008
Estudo mostra efeito alergênico de arroz transgênico da Ventria
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POR UM BRASIL LIVRE DE TRANSGÊNICOS
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Número 421 - 28 de novembro de 2008
Car@s Amig@s,
Michael Hansen, cientista sênior da ONG americana Consumers Union e um dos maiores especialistas no mundo em riscos dos transgênicos à saúde, esteve em São Paulo esta semana participando de evento realizado pelo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor).
Hansen apresentou uma série de dados recentes de novas pesquisas científicas, que pouco a pouco começam a comprovar que os alertas sobre os riscos que os alimentos transgênicos representam para a saúde dos consumidores, que começaram a ser divulgados há mais de dez anos, não eram sem razão.
Ilustraremos aqui apenas um exemplo de como efeitos colaterais são facilmente detectáveis quando as pesquisas são feitas de maneira séria e criteriosa e como os mesmos são irresponsavelmente omitidos pelos órgãos reguladores, que sistematicamente isentam os produtos de pesquisas aprofundadas ou simplesmente ignoram as evidências já identificadas.
A empresa de biotecnologia Ventria desenvolveu um arroz transgênico destinado à produção de duas proteínas, a lactoferrina e a lisozima, encontradas no leite materno e em outras secreções humanas, como saliva e lágrimas. No leite materno elas apresentam propriedades anti-microbianas.
Fora dos EUA a Ventria diz que seu arroz farmacológico irá ajudar a prevenir a diarréia. Nos EUA, diz que será usado em iogurtes e barras de cereais como suplementos nutricionais.
Estudos analisados pelo USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) relatam que “não foi encontrada nenhuma seqüência de aminoácidos da lactoferrina transgênica similar a tóxicos ou alergênicos conhecidos. (...) As bases de dados SWISS-PROT e TrEMBL foram utilizadas e nenhuma seqüência de aminoácidos foi encontrada entre a lactoferrina e alergênicos conhecidos”.
Entretanto, na submissão do produto ao FDA (órgão do governo americano que regulamenta Alimentos e Medicamentos) constava que “Uma busca por alergênicos conhecidos, identificada nos bancos de dados SWISS-PROT e TrEMBL, encontrou 52% de seqüências de aminoácidos similares entre lactoferrina humana e ovotransferrina de galinhas (conalbumina), que é um conhecido alergênico [presente na clara do ovo]”.
Lactoferrina bovina e humana compartilham 68% de aminoácidos idênticos. 41 dos 92 pacientes alérgicos a leite considerados numa pesquisa tinham alergia a lactoferrina bovina, o que levou os autores do estudo a concluírem que a substância pode ser considerada um alergênico importante.
Outros estudos demonstraram claramente que a lactoferrina e a lisozima derivadas do arroz transgênico são altamente resistentes à hidrólise por ácidos e proteases e à digestão no trato gastrointestinal, embora o estudo considerado pelo USDA dissesse que “a lactoferrina derivada do arroz da Ventria é equivalente à lactoferrina natural humana, que é rapidamente degradada (<30 segundos) no fluido gástrico.”
Outros estudos sobre alergenicidade relatam que, embora “desmentido” pelas conclusões do USDA, foram detectadas diferenças entre a lactoferrina natural e a transgênica nos padrões de glicosilação. Descobriu-se também efeitos no sistema de defesa relacionado à retenção de ferro. Alguns micróbios, assim como bactérias da família Neissariaceae (que contém diversas bactérias de doenças venéreas) podem obter ferro da lactoferrina humana transgênica e poderiam se tornar piores com níveis maiores de lactoferrina no organismo. Também foram encontrados anticorpos à lactoferrina humana transgênica em pacientes com doenças autoimunes -- lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatóide e colangite esclerosante.
Num teste clínico realizado com humanos no Peru, duas crianças já desenvolveram alergias ao soro com lactoferrina transgênica para tratar diarréia (Transgénicos: Niños ya sufren sus efectos - La Republica, 14/07/2006).
Ao longo dos próximos números deste Boletim apresentaremos os dados de outros estudos apresentados por Michael Hansen.
O que se comprova de toda esta história é que as indústrias de biotecnologia conseguiram a todo custo evitar que estudos criteriosos e aprofundados sobre os riscos dos organismos transgênicos fossem feitos e, sobretudo, exigidos.
Teria a CTNBio agido diferente do USDA diante do pedido da Ventria?
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Estudos citados: Bethel, 2003; Groenink et al., 1999; Wal, 1998; Humphrey et al., 2002: 1214 e Lonnerdal, 2002: 220S; Weinberg, 1999; Dhaenens et al., 1997; Vogel et al., 1997; Skogh and Peen, 1993; Afeltra et al., 1996; e Weinberg, 2001.
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Neste número:
1. CTNBio libera novos campos experimentais de transgênicos
2. Embrapa renova acordo com Monsanto
3. EUA pretendem “desregulamentar” milho transgênico para etanol
4. Itaipu Rural Show promovendo transgênicos
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
Agricultura orgânica ganha de métodos químicos na África
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1. CTNBio libera novos campos experimentais de transgênicos
A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança aprovou novos pedidos de cultivo de transgênicos para pesquisa. Entre os itens, foi aprovado o milho transgênico resistente a insetos da Monsanto, o algodão transgênico resistente a insetos da Bayer e o arroz transgênico para aumento da produtividade da Basf.
Os representantes da Comissão voltam a se reunir nos dias 10 e 11 Dezembro.
Com informações de:
Valor Econômico, 21/11/2008.
2. Embrapa renova acordo com Monsanto
Os presidentes da Embrapa, Silvio Crestana, e da multinacional americana Monsanto, Hugh Grant (principal executivo global do grupo), assinam nesta quinta-feira, em Brasília, a renovação, pelo terceiro ano seguido, da parceria entre ambas para o desenvolvimento de projetos agrícolas sustentáveis [sic].
No mesmo encontro, a Monsanto repassará R$ 7,8 milhões para o fundo de pesquisas da estatal brasileira. O montante provém do compartilhamento dos direitos de propriedade intelectual, a título de royalties, referentes à comercialização, na safra 2007/08, de variedades de soja da Embrapa com a tecnologia transgênica Roundup Ready, desenvolvida pela Monsanto.
Fonte:
Valor Econômico, 20/11/2008.
N.E.: É mesmo lamentável que a Embrapa dedique tantos recursos humanos e financeiros ao desenvolvimento de transgênicos que em nada ajudam os agricultores brasileiros (embora ajudem muito as múltis de sementes e agrotóxicos), ao invés de investir em tecnologias seguras, realmente sustentáveis e capazes de fortalecer a agricultura familiar, responsável pela produção de mais de 70% dos alimentos consumidos internamente no Brasil.
Leia o comentário "Soberania tecnológica às avessas", de Rui Falcão em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_post=142533
3. EUA pretendem “desregulamentar” milho transgênico para etanol
O Departamento de Agricultura do Governo Americano (USDA) está tentando facilitar o cultivo de milho transgênico para a produção de etanol, apesar dos temores de que ele possa acabar nos alimentos destinados ao consumo humano.
O órgão está pedindo comentários sobre uma proposta de “desregulamentar” um milho desenvolvido para produzir uma enzima que torna mais fácil a sua conversão em etanol. A desregulamentação do milho transgênico permitiria que ele fosse cultivado em qualquer lugar sem a necessidade de licença ou de qualquer supervisão do Departamento de Agricultura.
O Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal (APHIS) divulgou no início deste mês um estudo preliminar que conclui que o milho, desenvolvido pela Syngenta, é seguro para o consumo humano e para o meio ambiente.
Bill Freese, analista de ciência política do Center for Food Safety, disse que o gene inserido no milho poderia provocar alergias em pessoas expostas ao produto. “A intenção é usar o milho apenas para etanol, mas ele acabará entrando também no suprimento alimentar”, disse Freese. “Esta é a primeira lavoura proposta para o uso industrial e com uma espécie largamente usada na alimentação, deveríamos ser extremamente cuidadosos”.
O USDA revisará os comentários submetidos até o dia 20 de janeiro de 2009.
Fonte:
Soyatech, 24/11/2008.
www.soyatech.com/news_story.php?id=11408
4. Itaipu Rural Show promovendo transgênicos
Grãos transgênicos serão destaques na 11a edição do Itaipu Rural Show 2009, a maior exposição-feira de difusão tecnológica do agronegócio em Santa Catarina, lançada na última sexta-feira (21) no Grêmio Recreativo Pinhalense, em Pinhalzinho. Os transgênicos estão representados por 20 variedades de milho e 12 variedades de soja.
Segundo o coordenador técnico da expo-feira, engenheiro agrônomo Paulo Junqueira da Silva, “os transgênicos tornaram-se a nova esperança da agricultura mundial”.
O coordenador realça ainda que “a perspectiva de dispor de produtos que dispensam agrotóxicos e toda gama de venenos em seu manejo e tenham características terapêuticas e medicinais criará novas perspectivas para o comércio internacional, sendo determinante para o sucesso ou o fracasso de muitos países no plano do comércio exterior”.
Fonte: Fecoagro - Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado de Santa Catarina.
N.E.: É no mínimo curioso que os defensores dos transgênicos precisem, via de regra, dizer tantas mentiras para promover estes produtos. Falar na “perspectiva de dispor de produtos que dispensam agrotóxicos e toda gama de venenos em seu manejo” é simplesmente ridículo, especialmente agora que qualquer agricultor minimamente informado já sabe que os transgênicos disponíveis no mercado têm seu uso associado (e não dissociado) do uso de agrotóxicos das mesmas empresas que fabricam as sementes.
E mais ainda, que o uso de sementes transgênicas tem aumentado o uso de venenos, e não o contrário!
Além disso, as plantas terapêuticas e medicinais ainda não passam de promessas, cujos benefícios dificilmente superarão os riscos.
Enfim, se os transgênicos fossem mesmo tão bons, seus defensores provavelmente informariam sobre suas reais vantagens.
Sistemas agroecológicos mostram que transgênicos não são solução para a agricultura
Agricultura orgânica ganha de métodos químicos na África
Um grande estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) relatou que o uso de práticas orgânicas na África leva a produções maiores do que o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos. O estudo de 114 projetos em 24 países descobriu que as produções comumente mais que dobram quando são usadas práticas orgânicas ou semi-orgânicas, como a rotação de culturas e a compostagem. A agricultura orgânica também trouxe benefícios para as famílias e comunidades: ela incentivou melhorias de infra-estruturas locais como estradas, melhorou a fertilidade dos solos e aumentou a resistência dos solos à seca.
Uma vez que a agricultura orgânica se sustenta no uso de recursos disponíveis na propriedade ao invés de depender de insumos caros como sementes transgênicas e agrotóxicos, agricultores pobres podem implementar os métodos orgânicos mais prontamente do que poderiam implementar os métodos da agricultura industrial. Além disso, eles podem reter mais rendimentos.
O estudo concluiu que técnicas orgânicas são uma maneira prática para os agricultores africanos alcançarem as produtividades agrícolas que precisam e gerar segurança alimentar para a crescente população.
Fonte:
Union of Concerned Scientists - FEED - Novembro de 2008.
http://www.ucsusa.org/food_and_agriculture/feed/feed-november-2008.html#4
- Maiores informações em inglês em:
http://www.independent.co.uk/news/world/africa/organic-farming-could-feed-africa-968641.html
- Leia o estudo na íntegra, em inglês, em:
http://www.unctad.org/en/docs/ditcted200715_en.pdf
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Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos
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