Carta Aberta ao Presidente, 11 de agosto de 2006.
11/08/2006 - Neste momento, o que querem os lobistas é uma rápida liberação do cultivo comercial do milho transgênico ainda para a semeadura da safra 2006/2007.
Excelentíssimo Senhor Presidente
Luis Inácio Lula da Silva
Excelentíssima Senhora Ministra
Dilma Roussef
Presidente do Conselho Nacional de Biossegurança.
A atual Lei de Biossegurança, elaborada pelo então líder do Governo e atual
presidente da Câmara Aldo Rebelo foi muito comemorada pelo lobby das empresas de
biotecnologia e pela bancada ruralista, porque subtraiu as competências do IBAMA
e da ANVISA relativas à avaliação de riscos ao meio ambiente e à saúde,
concentrando poderes na CTNBio.
Agora, estes mesmos setores questionam duramente a atuação da Comissão,
solicitando mais mudanças na legislação e criticando a atuação de representantes
de alguns ministérios e da sociedade civil. Na verdade, o que desejam os
promotores da Biotecnologia é que a própria CTNBio realize a mais simplificada
e insuficiente avaliação de riscos à saúde e ao meio ambiente, e querem que a
CTNBio seja um mero guichê de aprovação de transgênicos.
A CTNBio, reestruturada pela lei 11.105/2005 e decreto 5.591/05, tem
enfrentado uma longa pauta acumulada após 01 ano sem funcionamento. Os desafios
não são pequenos: revisão de instruções normativas, análises de certificados de
qualidade em biossegurança (CQB), processos referentes a experimentos e a
liberações comerciais. Diante disto, é preciso distinguir claramente o que é
pressão de lobby da indústria (com alta repercussão ma mídia) e o que
corresponde à realidade.
Neste momento, o que querem os lobistas é uma rápida liberação do cultivo
comercial do milho transgênico ainda para a semeadura da safra 2006/2007. No
entanto, não há como iniciar a análise das solicitações de liberação comercial
sem antes definir os critérios de avaliação de risco que serão usados pelos
pareceristas, distribuir os pedidos de liberação para avaliação dos
especialistas e discutir em plenária os pareceres, que precisam obter 2/3 dos
votos dos membros da CTNBio. Estes procedimentos ainda não foram iniciados
porque há uma extensa pauta de normas e decisões de liberação de pesquisas que
foram colocadas em discussão prioritária pela maioria da Comissão.
As notas taquigráficas das reuniões 89a, 90a, 91a e 92a da CTNBio
demonstram que as discussões travadas na Comissão pelos representantes da
sociedade civil e dos Ministérios do Meio Ambiente e Desenvolvimento Agrário
foram essencialmente técnicas e voltadas para a missão legal de garantir a
biossegurança - leia-se a segurança dos produtos transgênicos para o meio
ambiente e para a saúde da população. Não abriremos mão de que as avaliações de
risco sejam rigorosas, criteriosas e transparentes, nem de discutir a
conveniência de liberações comerciais de transgênicos.
Forçar a aceleração destas discussões e/ou alterar o quorum de decisão é
subverter a própria legislação e o Princípio da Precaução, consolidado
internacionamente por diversos governos, e defendido inclusive pelo do
presidente Lula no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica. Acima de
tudo, é uma imensa irresponsabilidade que pode trazer prejuízos
irreversíveis.
As organizações abaixo-assinadas se opõem à pressão feita por aqueles que
querem promover a biotecnologia a qualquer preço. Continuaremos a exigir o
cumprimento da legislação nacional, que determina o rigor na avaliação de riscos
à saúde, ao meio ambiente e à agricultura. É um dever do Estado que não pode ser
flexibilizado.
Atenciosamente,
Movimento Sem Terra MST
Movimento de Pequenos Agricultores MPA
Fórum Brasileiro de Ongs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável - FBOMS
Rede Ecovida de Agroecologia
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
Assessoria a Projetos e Técnicas em Agricultura Alternativa -
AS-PTA
Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia - AOPA
Associação Biodinâmica
FASE
Fundação Vitória Amazônica - FVA
Instituto Socioambiental ISA
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor IDEC
Instituto Sociedade, População e Natureza
Núcleo Maurício Burmester do Amaral
Terra de Direitos