Professores da PUC enviam Carta Aberta ao MCT
SÃO PAULO, 17/04/2007. Os cientistas pedem que a CTNBio não delibere sobre os pedidos de liberação comercial de variedades de milho transgênico sem que antes “se proceda efetivamente a um sério debate público sobre os riscos envolvidos nesta liberação.” Segundo os professores, seria necessária a realização de pelo menos outra audiência pública para debater a questão.
São Paulo, 17 de abril de 2007
Diante dos
fatos recentemente noticiados sobre a Audiência Pública promovida pela
CTNBio no dia 20 de março para debater sobre uma eminente liberação de
cultivo comercial de milhos transgênicos, a tumultuada reunião da mesma
Comissão no dia seguinte e tomando conhecimento do teor da carta
enviada por professores da USP à CTNBio às vésperas da Audiência
Pública, nós, professores da PUC-SP, atuantes em diferentes áreas do
conhecimento, dirigimo-nos ao Sr. Ministro para manifestar a nossa
insatisfação quanto ao modo pelo qual a presidência da CTNBio vem
conduzindo o processo deliberativo desse órgão público, que desrespeita
não só os requisitos constitucionais de transparência, publicidade e
legalidade administrativa, mas também a publicidade, a transparência e
o senso de responsabilidade requeridos na prática científica.
Considerando
que muitos cientistas, bem como um grande leque de entidades da
sociedade civil ligadas à questão ambiental, à saúde, ao direito do
consumidor, à agricultura ecológica e familiar, bem como aos povos
indígenas alimentam o temor de que a liberação comercial de milhos
transgênicos implique em sérios riscos para o meio ambiente, a saúde, a
segurança alimentar e o patrimônio cultural de povos indígenas e
comunidades tradicionais, esperávamos que tal decisão só viesse a ser
tomada após cuidadoso exame dos seus prós e contra, consultando a
CTNBio, a quem a nova Lei de Biossegurança concedeu poderes plenos para
tal, cientistas de diferentes visões e áreas do conhecimento, bem como
ouvindo e respondendo às inquietações e questionamentos da sociedade
civil. Em vez disso, no entanto, a CTNBio:
1. Recusou-se a
convocar uma Audiência Pública para discutir a liberação comercial dos
milhos transgênicos, procedimento previsto na Lei de Biossegurança,
votando a maioria dos seus membros contra proposta neste sentido feita
por alguns dos seus conselheiros.
2. Obrigada a realizar a
Audiência Pública por força de liminar obtida na Justiça Federal por
entidades da sociedade civil, a CTNBio estabeleceu regras que
desfiguravam inteiramente o seu caráter, pois ao mesmo tempo que
cerceava a livre manifestação da sociedade civil e o debate científico
ao selecionar arbitrariamente alguns poucos oradores críticos à sua
posição, proibia os seus próprios conselheiros de responderem às
questões levantadas em plenário.
3. O presidente da CTNBio não
respondeu à solicitação enviada com antecedência pela entidade da
sociedade civil Greenpeace, para assistir à sua reunião mensal –
solicitação feita de acordo ao que prevê a Lei de Biossegurança, - e
chegou a requerer o emprego de força policial para retirar os
representantes daquela entidade do salão de reuniões, sendo disso
impedido pela interferência de representante do Ministério Público.
Este representante também teve que dissuadir o presidente da CTNBio de
transferir a reunião para lugar secreto, pois isto tornaria a própria
reunião nula. Não querendo deliberar sobre a liberação comercial de
milhos transgênicos na presença de representantes da Greenpeace (que
apenas queriam assistir à reunião, pois a legislação não lhes permite
voz), o Presidente da CTNBio preferiu suspender a reunião.
4. Em
clima de guerra, o Presidente da CTNBio anuncia medidas para impedir “a
invasão da próxima reunião, dias 17, 18 e 19 de abril por
totalitários”, enquanto vários dos seus membros enviam cartas aos
jornais acusando os oponentes de uma liberação açodada de transgênicos,
de estarem obstruindo e sabotando o funcionamento da Comissão.
Nós,
professores da PUC-SP, como cientistas de diversas áreas do saber e
como cidadãos, consideramos que os procedimentos acima relatados,
adotados pela presidência da CTNBio e pela maioria dos seus membros,
são incompatíveis com a democracia e com uma ciência responsável.
Em
se tratando da adoção de tecnologias polêmicas que poderiam comprometer
seriamente a nossa qualidade de vida e a das futuras gerações, só um
amplo debate público poderia conferir a legitimidade necessária às
decisões governamentais pertinentes, não havendo motivo, portanto, para
se subtrair ao escrutínio social e tomar decisões a portas fechadas.
Em
se tratando de ciência, além do mais, a publicidade é uma condição sine
qua non, pois só aquele conhecimento que se submete livremente à
crítica – pode pretender tal qualificativo. Chama-nos a atenção, por
isso, que nenhum daqueles cientistas – sabidamente críticos à posição
majoritária da CTNBio - tenha sido “selecionado” para falar durante a
mencionada Audiência Pública.
Da mesma forma, é chocante que os
membros da CTNBio tenham sido proibidos pelo seu Presidente de
responder às questões colocadas pelos oradores durante a Audiência
Pública.
Também repudiamos a pretensão de alguns dos
conselheiros – inclusive a de seu presidente –de considerar como
ciência apenas aquela área do conhecimento a que eles estão afeitos, ou
seja a biotecnologia.
A biossegurança requer uma visão
multidisciplinar, na qual se incluem não só diversas outras disciplinas
acadêmicas, mas também os saberes das comunidades tradicionais e dos
povos indígenas, a quem devemos todo o saber acumulado sobre a
biodiversidade e sem os quais, não existiriam as indústrias de
biotecnologia.
Finalmente, como cientistas que somos,
consideramos que o cientista não só tem um compromisso com a busca de
conhecimento, mas com as consequências deste conhecimento que ele ajuda
a construir, estando preso, portanto, tanto a uma ética da convicção,
quanto a uma ética da responsabilidade.
Por isso, não
compreendemos porque membros da CTNBio se molestam e se ofendem com a
presença de representantes da sociedade civil em reuniões, os quais sem
direito à voz ou votom, apenas poderão ouvir as razões pelas quais
aqueles conselheiros deliberarão a favor ou contra a liberação
comercial de variedades de milho transgênico.
Não é
compreensível que se esconda de cidadãos da República as razões pelas
quais órgãos públicos deliberam a respeito de medidas que poderão
prejudicar esses mesmos e outros cidadãos, a não ser que se queira
fugir às suas responsabilidades públicas e científicas.
Pelas
considerações acima expostas, vimos solicitar ao Exmo. Sr. Ministro que
não permita que a CTNBio delibere sobre a liberação comercial de milhos
transgênicos antes que se proceda efetivamente a um sério debate
público sobre os riscos envolvidos nesta liberação.
Para tal,
acreditamos ser necessária a realização de pelo menos uma outra
Audiência Pública, onde de fato possa haver um debate científico e não
uma sabatina de alguns “eleitos”. Insistimos também na conveniência de
se autorizar a assistência de reuniões da CTNBio por parte de entidades
e indivíduos que o solicitem, sempre que o façam conforme os termos da
lei.
Não há melhor forma de um órgão público obter o respeito
dos cidadãos a quem serve, do que funcionar de forma transparente e
democrática, mostrando a todos a competência e a seriedade do seu
trabalho.
Respeitosamente,
Ana Amélia da Silva – Departamento de Sociologia
Ana Maria Trapé Trinca – Departamento de Psicodinâmica
Carmen Junqueira – Departamento de Antropologia
Cláudio Gonçalves Couto – Departamento de Política
Dulce Maria Tourinho Baptista – Departamento de Sociologia
Edgard de Assis Carvalho – Departamento de Antropologia
Franklin Winston Goldgrup – Departamento de Psicodinâmica
Gustavo de Oliveira Coelho de Souza – Departamento de Geografia
Leila Blass – Departamento de Sociologia
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida – Departamento de Política
Marcos Bernardino de Carvalho – Departamento de Geografia
Maria Carmelita Yazbek – Faculdade de Serviço Social
Maria Margarida Cavalcanti Limena – Departamento de Sociologia
Marlise A. Bassani – Faculdade de Psicologia
Marijane Vieira Lisboa – Departamento de Sociologia
Matilde Maria Almeida Melo – Departamento de Sociologia
Maurício Broinizi Pereira – Departamento de História
Mônica Muniz Pinto de Carvalho de Souza – Departamento de Sociologia
Raquel Raichelis Degensajn – Faculdade de Serviço Social
Rinaldo Sérgio Vieira Arruda – Departamento de Antropologia
Vera Lúcia Vieira – Departamento de História