Uma "mãosanta" lava a outra
A Monsanto transferiu uma fazenda para o deputado que preside a Comissão de Agricultura e é um dos maiores defensores dos transgênicos na Câmara
Correio Braziliense, Brasília, 8 de maio de
2006
crise ética
DNA de um
mandato
Solano Nascimento, Da equipe do Correio
Em um
Congresso que nos últimos anos produziu parlamentares com alcunhas de anões do
orçamento e mensaleiros, a mistura entre interesses públicos e privados não
chega a ser novidade. Mesmo assim, o caso do deputado Abelardo Lupion (PFL-PR)
merece ser contado por duas razões. Primeiro pela importância do parlamentar,
que coordenou a poderosa bancada ruralista, é expoente do grupo pró-transgênicos
na Câmara e preside a Comissão de Agricultura, uma das mais disputadas da Casa.
Em segundo lugar porque a atuação do pefelista está ligada à produção de
alimentos e ao uso de agrotóxicos, áreas em que erros e equívocos costumam
implicar danos à saúde.
O trabalho no parlamento não é a única ligação de
Lupion com a produção e venda de organismos geneticamente modificados. Um outro
elo se encontra em Santo Antônio da Platina, município do oeste do Paraná. É a
fazenda Santa Rita, de 351 hectares, que passou do nome da Monsanto, a
multinacional que domina o mercado mundial de transgênicos, para o do deputado.
O imóvel só foi oficialmente quitado seis anos depois do início do processo de
compra, Lupion não desembolsou um centavo em dinheiro para pagamento de juros, e
corretores calculam que a terra vale pelo menos três vezes mais que o valor
declarado na operação.
A transferência da fazenda começou oficialmente no
dia 14 de outubro de 1999, com um compromisso de compra e venda assinado pela
Agropecuária Cumaru, de Lupion, e a Sementes Agroceres, empresa que estava sendo
incorporada pela Monsanto. Uma escritura arquivada no cartório de Santo Antônio
da Platina mostra que a venda só foi oficializada no dia 28 de maio de 2004, e
um outro documento (ver
quadro) revela que a quitação só ocorreu um ano depois. Lupion e sua
assessoria jurídica explicam a transação da seguinte forma: a venda demorou
porque a Monsanto teve dificuldades para passar certidões referentes à
regularização do imóvel, o que impede a escrituração, e na maior parte do tempo
não houve pagamento de juros justamente porque o atraso era culpa da vendedora,
e não do comprador.
A explicação é boa, mas tem alguns problemas. O
primeiro se refere à documentação que comprova, ainda antes da escritura, que o
imóvel realmente foi comprado pelo deputado. Lupion afirmou ao Correio que o
compromisso de compra e venda assinado com a Agroceres, uma espécie de contrato
de gaveta, havia sido registrado, fato que poderia servir de prova legal da
existência do documento. O contrato não foi registrado. Como a fazenda não
aparece na declaração de bens do deputado apresentada ao Tribunal Regional
Eleitoral do Paraná, o parlamentar afirmou que iria mostrar uma cópia da
declaração de bens de sua empresa em que o imóvel apareceria. Isso comprovaria
que a transferência do imóvel foi legalizada perante a Receita Federal e quando
isso ocorreu. Dias depois da promessa, por meio de sua assessoria jurídica,
Lupion informou que não mais mostraria o documento, pois tem direito ao sigilo
fiscal.
Há uma contradição entre as declarações de Lupion e informações
da Monsanto em relação ao pagamento de R$ 260 mil, acertados em outubro de 1999
e referentes à primeira parte do valor da fazenda. Segundo a agência de
comunicação da Monsanto, o dinheiro foi pago “de imediato”, em uma única
parcela. De acordo com Lupion, foram pagos R$ 70 mil em 1999 e outros R$ 190 mil
dois anos depois. O deputado apresentou duas cópias de recibos de depósitos
bancários que comprovariam esses pagamentos.
A Monsanto informou não ter
tempo para explicar se os juros cobrados de Lupion se referiam a todo o processo
- de 1999 a 2005 - ou somente ao último ano da operação. O deputado explicou que
só pagou juros entre maio de 2004, quando recebeu a escritura, e maio de 2005,
quando fez a quitação. E o pagamento não foi em dinheiro. De acordo com um
documento apresentado por Lupion, em 2005 ele transferiu para a Monsanto um
terreno em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, avaliado
em R$ 482 mil, dos quais R$ 52 mil seriam referentes a juros. Ou seja, não houve
um único pagamento em dinheiro de juros durante seis anos.
O deputado
responsabiliza as dificuldades para apresentação de certidões da fazenda pela
demora na quitação do imóvel, mas a escritura registrada no cartório paranaense
mostra que em maio de 2004 foram repassadas a Lupion todas as certidões, e mesmo
assim a terra só foi oficialmente paga um ano depois, quando já corriam entre
adversários políticos de Lupion no Paraná boatos sobre a transferência para ele
do imóvel da Monsanto. O pagamento final foi formalizado na cidade de São Paulo
no dia 25 de maio de 2005. Exatamente nesse dia, no município de Cascavel (PR),
começava o IV Encontro da Jornada de Agroecologia, no qual foi discutida a
suspeita de irregularidade na venda da Santa Rita e decidida a apresentação de
uma denúncia formal contra Lupion. A acusação foi mais tarde arquivada porque a
Corregedoria da Câmara entendeu que, pelo regimento da Casa, os agricultores não
tinham direito de fazer a representação.
“Achamos estranho que a
transferência da fazenda da Monsanto para o deputado tenha acontecido
coincidentemente quando estava sendo discutida a lei de biossegurança”, conta
Darci Frigo, um dos organizadores do encontro de agroecologistas. A lei, que
depois de uma longa discussão autorizou a produção e venda de soja transgênica
no Brasil, foi apelidada por ambientalistas de “Lei Monsanto” e aprovada no dia
2 de março de 2005. Lupion festejou ao final da votação. “Que Deus abençoe a
todos nós, porque a partir de hoje este Parlamento está mudando a história do
Brasil, e o atraso estamos deixando para trás”, discursou o deputado, que tivera
papel fundamental na aprovação do texto.
Há divergências também em
relação ao valor da Santa Rita. Segundo documentos registrados em cartório, o
imóvel de 145 alqueires custou R$ 690 mil. O Correio consultou corretores de
três imobiliárias de Santo Antônio da Platina, que conhecem a fazenda de Lupion.
Eles avaliaram o alqueire da Santa Rita entre R$ 16 mil e R$ 20 mil, o que faria
o imóvel custar entre R$ 2,3 milhões e R$ 2,9 milhões. “É uma fazenda grande e
bem cuidada”, diz Tereza Prates, da Boberg Imóveis. Os três corretores são
unânimes em garantir que a propriedade valia ainda mais em 1999, ano do
compromisso de compra e venda. “O preço da terra caiu bastante por aqui”, conta
Vilson Galdino Ribeiro, dono da Imobiliária Portal do Sol.
Para se
defender da acusação dos agropecuaristas, Lupion entregou no ano passado à
Corregedoria da Câmara uma declaração da prefeitura de Santo Antônio da Platina
sobre o valor de imóveis na região. O documento é assinado pelo prefeito José
Ritti Filho, eleito por uma coligação do PSB com o PFL, partido de Lupion. A
declaração diz que o alqueire no município valia em 1999, “para fins de
lançamento do ITBI”, entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil. “Se aparecer terra por esse
preço, eu compro”, diz, rindo, Arão Dias, sócio da imobiliária Casa e Terra.
“Isso não tem nexo.”
Deputado beneficiou empresas
A
gigante mundial dos transgênicos e uma doadora de campanha de Lupion são as
únicas fabricantes do princípio ativo do agrotóxico glifosato. O parlamentar
apresentou emenda para liberar a venda do herbicida
O
pefelista Paranaense diz ter comprado a fazenda em Santo Antonio da Platina para
fazer melhoramento genético de gado bovino. Lupion concilia a atuação
parlamentar com a atividade de empresário rural
O deputado
Abelardo Lupion (PFL-PR) apresentou uma proposta na Câmara para liberar a
comercialização no Brasil do agrotóxico glifosato para uso na soja transgênica.
As duas únicas fabricantes no país do ácido de glifosato, o princípio ativo do
herbicida, são a Monsanto, antiga proprietária de uma fazenda do
deputado, e a Nortox, uma das principais financiadoras da campanha de
Lupion.
No final de 2004, foi debatida no Congresso a medida provisória
número 223. Por ela, o governo autorizava o plantio e a comercialização de soja
transgênica, produzida pela Monsanto, que mesmo antes da MP era plantada
ilegalmente no país. Na discussão, ruralistas e ambientalistas digladiaram-se no
Congresso em lados opostos. A emenda do agrotóxico foi apresentada por Lupion no
dia 20 de outubro daquele ano, cinco meses depois de a Monsanto ter passado para
o nome do parlamentar a fazenda Santa Rita.
Até aquele momento, só era
autorizada no país a comercialização do glifosato para a colocação na terra
antes de a soja ser plantada. Não havia licença de venda do produto para o
chamado uso pós-emergente, em que a aplicação ocorre depois de a planta emergir.
Na justificativa da emenda, o deputado afirmou: “A tecnologia da soja
geneticamente modificada fundamenta-se na utilização do herbicida glifosato em
pós-emergência da soja, diferentemente da soja convencional, na qual tal prática
causaria a morte das plantas”. O Ministério da Agricultura liberou a nova forma
de utilização do herbicida, e três meses depois a Monsanto começou a vender seu
produto, com o nome de Roundup Ready, o famoso agrotóxico pós-emergente para a
soja transgênica.
A Nortox ainda está esperando a autorização do
Ministério da Agricultura para escrever no rótulo de seu glifosato pós-emergente
a destinação para soja transgênica, mas o produto, teoricamente destinado a
outras plantas, pode ser usado na sojicultura. Depois da liberação da soja
transgênica no país, o volume da comercialização do glifosato cresceu pelo menos
30%.
Dados registrados no Tribunal Superior Eleitoral mostram que na
eleição de 2002 a Nortox contribuiu para campanhas de sete candidatos a deputado
federal. As duas maiores doações, de R$ 50 mil cada uma, foram feitas para um
parlamentar gaúcho e para Lupion. No caso do deputado paranaense, a contribuição
foi uma das duas únicas doações de R$ 50 mil, as maiores que aparecem na
prestação de contas do candidato.
Apesar de aparentemente serem
concorrentes, a Monsanto e a Nortox ingressaram juntas em 2001 com uma petição à
área de comércio exterior do governo acusando fabricantes chineses de dumping
nas exportações de glifosato para o Brasil. Em 2003, as duas indústrias foram
acusadas de dividirem apenas entre elas o mercado desse herbicida. Negaram a
acusação.
Um parecer de 26 de agosto de 2004, elaborado pela Secretaria
de Acompanhamento Econômico, do Ministério da Fazenda, detalha a atuação das
empresas. Segundo o documento, Monsanto e Nortox estão “virtualmente integradas”
e são as únicas a produzirem no Brasil ácido de glifosato. As demais empresas
que vendem o herbicida no país precisam adquirir a substância no exterior ou
comprar o produto da Monsanto, relata a secretaria.
A emenda que liberou
o glifosato não foi a única feita pelo deputado no processo de discussão dos
organismos geneticamente modificados. Ao todo, Lupion apresentou 13 emendas à MP
de 2004 beneficiando plantadores de soja transgênica e empresas ligadas à venda
e plantio do produto. As propostas do pefelista ampliavam prazos e eliminavam
punições. Uma delas incluía representantes do setor privado no grande colegiado
que estava sendo criado pelo governo para discutir produtos transgênicos.
Conta da mãe
As doações legais, registradas na Justiça
eleitoral, podem não ser a única ajuda em eleições recebida por Lupion do
agronegócio. Em um processo que tramita em sigilo parcial no Supremo Tr ibunal
Federal (STF), Lupion é acusado de irregularidades no pleito de 1998. A denúncia
apresentada pela Procuradoria Geral da República (PGR) em dezembro de 2002
informa que o deputado usou uma conta corrente da mãe de seu coordenador de
campanha para “movimentação ilícita” de um caixa 2 no valor de R$ 4,1 milhões. O
dinheiro não teria sido declarado nem à Justiça Eleitoral nem à Receita Federal.
A defesa entregue pelo deputado ao STF diz que o Ministério Público
restringiu-se a “meras suposições”. A PGR pediu a quebra do sigilo bancário do
deputado, mas ainda não houve uma decisão.
Um dos depoimentos usados na
denúncia como prova testemunhal contra Lupion é o de Manoel Dias Paredes Filho,
ex-comandante do Corpo de Bombeiros do Paraná. Ele contou ter gerenciado o
escritório de campanha do deputado em Curitiba, confirmou o uso da conta da mãe
do coordenador e disse que o “dinheiro vinha principalmente de contribuições de
empresários do setor agropecuário e de cooperativas”.
Político nega
favorecimentos
Eu defendo o agronegócio, mas não
estou defendendo empresa alguma
- Abelardo Lupion, deputado federal do
PFL
De acordo com o deputado Abelardo Lupion (PFL-PR), suas
relações com empresas ligadas à agricultura se devem a sua atuação como
ruralista antes de assumir uma cadeira no Congresso. “Dentro do agronegócio
brasileiro, eu me relaciono com todas as empresas. Antes de ser deputado
federal, eu era produtor rural, a minha vida inteira foi de produtor rural”,
afirma. “Eu defendo o agronegócio, mas não estou defendendo empresa alguma,
estou defendendo um sistema e, antes de qualquer sistema, eu defendo o produtor
rural.” O pefelista nega irregularidades na transferência de uma fazenda da
Monsanto para seu nome e afirma não ter favorecido empresas com a proposta
apresentada na Câmara para liberar o glifosato.
Lupion conta ter
adquirido a Fazenda Santa Rita para fazer melhoria genética de bovinos. “A
Monsanto colocou à venda, porque ela já tinha outras fazendas de pesquisa”,
relata. Ele afirma que a demora de seis anos entre o início de processo de
compra e a quitação do imóvel ocorreu por dificuldades da Monsanto para fornecer
certidões relativas ao imóvel. Foi também por causa desses empecilhos, diz o
deputado, que não foram pagos juros durante cinco anos.
O pefelista nega
que a fazenda tenha sido subavaliada. “Eu paguei mais do que valia”, garante.
“Tudo tem nota, tudo está escriturado, eu não fiz nada que não fosse à luz do
dia.” A Monsanto informou por meio de sua agência de comunicação que a dívida de
Lupion pela compra da fazenda foi paga e que o imóvel foi vendido “pelo melhor
preço”. A empresa relatou ter havido cobrança de juro no último ano da transação
entre 2004 e 2005 , mas não explicou por que não houve cobrança nos cinco
anos anteriores.
Briga
O deputado diz não lembrar da
emenda que apresentou para liberar o uso do glifosato, mas afirma não haver
nenhum problema na proposta. “Eu nunca votei em nenhuma comissão, nunca presidi,
nunca relatei nenhuma comissão em que a Monsanto tivesse influência alguma”,
garante. Em relação à Nortox, Lupion diz conhecer os donos da empresa. “Eu não
tenho relacionamento comercial nenhum com a Nortox, a empresa simplesmente me
ajudou na campanha, como muitas outras empresas”, afirma. Foi, segundo ele, uma
contribuição absolutamente normal. “Um monte de outras empresas fizeram doações
para a minha campanha em função da minha briga pelo agronegócio”, explica. “Elas
querem botar gente que defenda o sistema aqui dentro.” Lupion descarta, no
entanto, qualquer vinculação entre a emenda do glifosato que apresentou e a
doação da Nortox. “Ela não é dona do meu mandato”, afirma.
O diretor
Comercial da Nortox, Humberto Amaral, conta que a doação a Lupion ocorreu porque
“o deputado atua na área de agronegócio e é do Paraná”. Ele afirma que a empresa
discutiu assuntos referentes à soja transgênica com o deputado, mas não tratou
especificamente da emenda que liberou a venda do agrotóxico glifosato. (SN)